Crédito da imagem: Cleber Akamine / globoesporte.com |
Apesar de o clube não revelar um balanço com possíveis lucros ou perdas, uma coisa é certa: a chegada de Zizao abre portas para que outros atletas de países sem tanta tradição no futebol, mas com boa capacidade de investimento, como a China sejam contratados mais por marketing do que pela bola. É o caso do Botafogo, de Ribeirão Preto, tradicional clube do interior de São Paulo.
Há quase dois anos no Brasil, um grupo de 27 chineses, entre 15 e 19 anos, que treina no projeto de intercâmbio Botafogo Academy vive a expectativa de também ter uma oportunidade.
Escolhidos por técnicos chineses, os garotos chegam ao Brasil com o propósito de aprimorar os aspectos técnicos e táticos do futebol para construir uma carreira profissional e, quem sabe um dia, 'roubar' a vaga de Zizao.
Essa é a meta do pequeno Chen Xiang, de 16 anos, apelidado de Miguel - todos ganham um nome brasileiro logo na chegada. Apesar de não conhecer muito bem o novo xodó da torcida corintiana, Xiang almeja uma carreira no time de Parque São Jorge.
- Essa contratação do Corinthians foi boa para os chineses e boa para mim. O Zizao foi o primeiro a vestir a camisa de um grande time no Brasil. Eu quero ser o segundo - declarou Xiang, que tem como sonho defender a seleção de seu país.
Enquanto a convocação não chega, o lateral-direito se esforça para aprender com o futebol brasileiro que, segundo ele, é bem diferente do chinês.
- No Brasil, os jogadores usam muito a cabeça. São mais inteligentes. Na China, todos vão mais na força, explorando mais a velocidade - disse Xiang, incomodado com a temperatura ribeirão-pretana, que chegou a 43,6 ºC nesta semana.
Quem também tem acompanhado os passos de Zizao é o Guo Xu - o Gustavo. Aos 17 anos, ele fez fez elogios ao corintiano.
- Não conseguimos ver muita coisa do Zizao porque ele jogou pouco tempo, mas dá para melhorar. Como ele ainda é novo, acho que pode evoluir. Contra o Cruzeiro, Zizao entrou bem - disse Guo Xu, que já sabe onde quer jogar quando virar jogador profissional.
- Quero defender o Botafogo, no Rio de Janeiro. Lá é muito bonito. Tem mulheres bonitas, praias bonitas - disse o jogador, que, junto com os demais companheiros chineses, confessou nunca ter ouvido falar de Zizao antes de o Corinthians contratá-lo.
Realidade x Sonho
O coordenador do Botafogo Academy, Gladstone Stwart, sabe que a maioria dos garotos acaba retornando à China sem ter uma oportunidade no futebol brasileiro. Alguns, por outro lado, já chamam a atenção da comissão técnica do Botafogo e das seleções.
É o caso do goleiro Rong Shang, de 18 anos, também conhecido como José. Destaque entre os intercambiários, o camisa 1 já foi convocado para a seleção chinesa sub-20 e participa de treinos das categorias de base do próprio Botafogo.
Feliz no Brasil, Shang tenta administrar a ausência da família para seguir o sonho de ser um jogador profissional.
- Sinto saudade dos meus familiares, mas tenho o futebol como principal objetivo - disse Rong Shang, que também tem acompanhado a carreira de Zizao.
- É difícil para ele, principalmente por causa da língua. Todos nós torcemos para que ele vá bem no Corinthians. E todos nós sonhamos chegar lá um dia também - explicou, com uma certa dificuldade, mas falando português.
Botafogo Academy
O projeto Botafogo Academy, antes administrado pelo Olé Brasil, atualmente conta com 110 jogadores de seis diferentes países, além da China: Benin, Cazaquistão, Haiti, Turcomenistão, Quirguistão e Estados Unidos.
São tantos garotos que passam pelo CT botafoguense Manoel Leão que alguns acabam ganhando destaque em seus países. No mês de outubro, o programa serviu à seleção sub-17 do Benin, com cinco jogadores que foram convocados para disputar dois jogos da Copa da África: Quenun Ulrich, Makon Roussos, Radji Koudous, Houngbedji Gaston e Baraze Ismael.
O técnico Luiz Ramos, que comanda os garotos do Benin no Brasil, enaltece a seriedade do projeto.
- Todo trabalho que fazemos aqui é muito qualificado. Nesse sentido, termos esses atletas na seleção é um reconhecimento. Os tutores deles aqui sabem quais são as carências da seleção e são intermediários dessa convocação - explicou Ramos.
Hospedados no CT Manoel Leão, todos os 110 garotos seguem um programa diário de treinamentos com profissionais do próprio clube, e também educacional, com aulas de idiomas - português e inglês -, além de atividades de lazer como piscina, sauna, salão de jogos, academia.
O coordenador Gladstone Stwart acredita que muitos desses atletas estarão, em breve, disputam campeonato estaduais por diferentes times.
- Eles evoluíram bastante durante o programa. Alguns jogadores vão atingir níveis de Série A1, Série A2 e outros, infelizmente, não vão chegar ao nível ideal. Inclusive, alguns, já estão sendo aproveitados pelo Botafogo - lembrou Stwart, que observa um comportamento diferente após os trabalhos no Brasil.
- O futebol brasileiro tem o ambiente mais descontraído e eles acabam se soltando aqui. Nós os deixamos mais à vontade e eles pegam o estilo brasileiro de jogar e se comportar. O brasileiro começa desde cedo. Quando começa a engatinhar, já ganha uma bola e isso facilita. O movimento do futebol é técnico, repetitivo. Nisso, o brasileiro leva vantagem - comentou o coordenador do Botafogo Academy, que aprova a contratação de Zizao pelo Corinthians.
- É muito importante porque vai abrir campo para eles ficarem aqui no Brasil. Os chineses adoram o povo brasileiro. Eles sonham jogar aqui. O Zizao tem uma grande influência nisso - explicou.
Fonte: Globo Esporte

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