
Nove títulos como profissional, duas Copas São Paulo de Juniores e
uma história que já dura 13 anos no Corinthians. Júlio César de Souza
Santos, ou simplesmente Júlio César, é o jogador que mais levantou taças
pelo clube nos 103 anos de história, que se completam neste domingo.
Uma espécie de torcedor em campo, o goleiro, que é dono de uma franquia
da loja oficial do Timão, chegou a jogar com um dedo quebrado aos gritos
de “Aqui é Corinthians!”. Atualmente na reserva, ele divide opiniões.
Entre grandes elogios e críticas pesadas, o atleta vê sua saída como
inevitável.
Dois Brasileiros (2005 e 2011), dois Paulistas (2009 e
2013), Série B (2008), Copa do Brasil (2009), Libertadores da América
(2012), Mundial de Clubes (2012) e Recopa Sul-Americana (2013): ninguém
conquistou tantos títulos pelo Corinthians quanto o goleiro. Titular no
Brasileirão de 2011, viveu seu auge após grande atuação no empate sem
gols contra o arqurrival Palmeiras, na última rodada, resultado que
assegurou ao Timão o quinto título nacional de sua história.
Mal
sabia ele que, meses depois, pelas quartas de final do Paulistão,
deixaria o posto na formação principal para nunca mais se firmar. A
atuação desastrosa na derrota por 3 a 2 para a Ponte Preta, que causou a
eliminação precoce do Corinthians no estadual, gerou a pior onda de
críticas que Júlio César ouviu em sua carreira. Do paraíso, nos braços
da Fiel, o jogador passou ao inferno. Perdeu a vaga para Cássio, que se
tornaria peça fundamental nas conquistas da Libertadores e do Mundial.
No
fim de semana em que o Alvinegro comemora seu 103° aniversário, o maior
vencedor da história do clube abriu o jogo, em entrevista exclusiva ao
GLOBOESPORTE.COM, e fez um balanço de tudo o que construiu no Timão até
agora. Da chegada ao clube, em 2000, vindo do pequeno Guapira, passando
pelos melhores e piores momentos. O respaldo do técnico Tite, o apego à
família e o bom humor inalterável no dia a dia. Conheça um pouco mais do
goleiro no bate-papo abaixo.
GLOBOESPORTE.COM: Se te pedissem para fazer um balanço de tudo o
que você passou no Corinthians até hoje, quais seriam as primeiras
coisas que viriam à sua mente?Júlio César:
Se eu for fazer um resumo de tudo o que passei no Corinthians, com
certeza vou lembrar de muitas coisas positivas. Cheguei ao clube em
2000, com 15 anos, vindo do Guapira, um time pequeno que nem futebol tem
mais. Vir para um grande clube, dar esse salto foi uma vitória muito
grande. Ficar aqui tanto tempo é uma conquista pessoal.
O que representa para você ser o jogador que mais ganhou títulos na história do Corinthians? Já parou para pensar nisso?
É uma honra ter tantos títulos variados aqui. Tudo o que o Corinthians
disputou eu tenho no meu currículo, e isso é muito importante. Sei que
outros grandes jogadores jogaram mais do que eu, mas só de participar, a
cada ano poder levantar uma taça e ser lembrado pela torcida, isso já é
uma honra. Eu sou corintiano. Realizei sonhos de amigos e familiares, e
fico muito feliz com tudo isso.
Qual a lembrança mais significativa que você guarda em tanto
tempo de Corinthians? E qual foi o pior momento vivido por você no
clube?
A Libertadores ficou na memória por ser um título inédito, mas meu
melhor momento foi 2011. O último jogo, contra o Palmeiras, com a
torcida toda apoiando no Pacaembu, foi inesquecível. Aquele momento eu
vivenciei com muita vontade e força. Mas ninguém consegue criar uma
grande história sem tropeços. O que mais doeu foi contra a Ponte Preta,
em 2012, quando eu saí do time. Não consegui retomar mais. Foi um
aprendizado muito bom, e não adianta querer viver só de vitórias.
Passou, eu consegui superar.
Você guarda remorso das críticas que a torcida fez, mesmo
depois de ter sido importante em um título de expressão pouco tempo
antes?
Aqui no Corinthians, quando você está bem, os elogios são muitos. Mas
quando você faz algo errado, as críticas são pesadas. Graças a Deus
tenho minha família, me apego a eles e a verdadeiros amigos. São coisas
que passam e acontecem. Fiquei mais maduro, aprendi com os erros. Se for
ficar pensando, você não consegue viver o dia de amanhã.
Você recebeu diversas propostas para deixar o Corinthians, mas,
mesmo como reserva, preferiu permanecer no clube. Por que você acha que
ainda não saiu?
Acho que ainda não foi o momento para que isso acontecesse. Uma hora ou
outra isso vai ser inevitável. O Vasco foi o que mais me balançou por
ser um time da mesma grandeza e estrutura do Corinthians. O espaço aqui é
grande, mas eu não sei dizer o que vai acontecer, se vou sair, se vou
ficar... Espero continuar algum tempo, mas quando acontecer eu tenho de
estar preparado para ir embora.
O Tite é conhecido entre os jogadores por ser um técnico justo.
Quando ele tirou você da equipe titular para colocar o Cássio, qual foi
o diálogo entre vocês?
Ele me chamou para conversar e disse que precisaria mudar a equipe. Eu
entendi perfeitamente. O Tite sempre foi muito bacana comigo. Na época
em que eu quase saí para o Vasco, ele me desejou boa sorte. Mas quando a
negociação acabou não dando certo, ele me chamou de novo e disse que
nada mudaria, que eu continuaria com o mesmo espaço. É bom ter uma
pessoa que joga aberto e é franca com você.
Como uma pessoa muito apegada à religião, você deve rezar todos
os dias. Se você puder revelar, qual é seu principal pedido nas
orações?
Eu só peço saúde para fazer aquilo que gosto de fazer. Às vezes pedimos
uma conquista, mas eu sou um cara que prefere agradecer pelo que tem a
pedir. Tenho muita coisa na minha vida. Estar em perfeitas condições
para trabalhar já é uma vitória. O resto a gente passa por cima e vai
atrás.
Em treze anos de clube, você viu muita coisa mudar aqui dentro.
Diretoria, estrutura, técnico, companheiros de elenco... O que você
acha que melhorou no Corinthians de 2000 para cá?
Mudou o pensamento das pessoas que comandam o Corinthians. Começaram a
ver o clube com a grandeza que ele tem. É uma marca muito grande, tem
reconhecimento internacional. Só a construção do nosso centro de
treinamento já é gigante demais. Ter tranquilidade, estrutura de
trabalho, o peso da camisa... Tudo isso faz ganhar títulos.
Os outros jogadores dizem que você é um dos mais bem humorados
aqui. Sempre está rindo, brincando com todo mundo... De onde vem essas
brincadeiras?
São muitas histórias vividas aqui dentro. Conheci muitas pessoas, mas o
cara mais engraçado que passou por aqui acho que foi o Vampeta. Também
tinha o Perdigão, que era cheio de contar histórias. Eu gosto de dar
apelidos para os outros, dar risada. O Fábio Santos, por exemplo, nós
chamamos de Padre Quevedo. Já o Cássio não posso falar, porque ele não
gosta. O Sheik agora é alvo das brincadeiras mais recentes por tudo o
que tem feito, né? Ele não foge da nossa gozação o dia todo! (risos)
Se você se deparasse com a torcida do Corinthians hoje, qual
seria o recado a ela? Qual o grau de importância do clube para o Júlio
César, como pessoa?
Eu agradeceria cada coisa que cada um fez por mim. Independentemente de
serem coisas boas ou ruins, se você colocar tudo num liquidificador e
mexer bem, vai sair uma coisa boa. Sei do carinho e da admiração que a
torcida tem. De um cara que ama, que cresceu aqui dentro, respeita o
clube acima de tudo e que é apaixonado, vem aqui trabalhar com todo
prazer e vontade todos os dias. Eu posso estar em outro time, longe
daqui, mas quando eu parar de jogar bola, meus filhos vão vir aqui,
vestir a camisa do Corinthians e vamos para a arquibancada torcer
juntos.
Fonte:
Globo Esporte