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Casagrande, em 1984, disse que não queria viajar para
o Japão com o Timão
Crédito da imagem: Agência Estado
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Bicampeão paulista, o elenco do Timão voltou de férias no início de janeiro e se reapresentou no próprio aeroporto de Congonhas para a temporada de 1984. A série de amistosos pela Ásia começaria pelo Japão, mas a equipe ainda passaria por Hong Kong, na China, Tailândia e Indonésia em um período de 15 dias de pré-temporada no exterior. Por pouco, no entanto, Casagrande não embarcou. Apaixonado pela namorada que havia acabado de conhecer nas férias, o ex-atacante teve que ser arrastado para o aeroporto.
- Foi uma tortura para mim, eu não queria ir para o Japão. Eu tinha passado as férias em Santos e conhecido minha ex-mulher lá. Comecei a namorar em dezembro, estava super apaixonado na praia, não queria voltar. Cheguei em casa às 16h no dia da viagem, e o avião partia às 20h. Tinham três peruas do Corinthians me esperando na porta, e a minha mãe ficava falando: 'Fica do lado dele, que se não ele ficar não vai!'. Foi uma luta... - recordou Casagrande.
Recém-contratado da Ponte Preta, o ex-goleiro Carlos foi recepcionado pelos companheiros e integrado ao grupo na própria sala de embarque, ainda em São Paulo. Após diversas escalas e uma viagem que durou cerca de um dia e meio, o Timão desembarcou no Japão. Mas a cabeça de Casagrande ainda estava no Brasil. Como o Corinthians vivia a época da democracia e todos no clube opinavam nas decisões internas do clube, a delegação convocou reuniões para decidir se o atacante voltaria ao país.
- Desci do avião e falei para o Adilson (então diretor de futebol) que queria voltar. Ele perguntou se eu estava louco: 'acabamos de chegar e você quer voltar?'. Como era democracia, tivemos umas quatro reuniões sobre se eu voltaria ou não. Na última reunião, o Eduardo (ex-atacante) disse que fez essa mesma excursão com o Cruzeiro no dia seguinte da morte do pai. Aí eu fiquei, não teve jeito. Mas eles pagavam a diária e eu gastava tudo em telefone - completou Casagrande.
- O Casagrande estava invocado. Chegou lá muito triste, dava até umas cabeçadas na parede do quarto (risos). Eu zoava ele o tempo todo, ficava falando 'você vai quebrar a cabeça assim!' - brincou o ex-volante Biro-Biro, outro jogador que entrou em campo nas três partidas disputadas no Japão naquele ano.
Neve e conhaque ?para esquentar?
Sem treinar e completamente fora de ritmo, o Corinthians não foi bem no Japão. Dos três amistosos contra a seleção japonesa, perdeu dois e venceu somente um. O desempenho ruim, segundo os jogadores, teve um grande culpado: o frio. O Corinthians entrou em campo com neve e temperatura de sete graus negativos para a primeira partida, no Estádio Memorial, em Kobe, e acabou derrotado por 2 a 1 - gol de Sócrates. Biro-Biro entregou o segredo para conseguir superar condições tão adversas: um gole de café com conhaque.
- Estava frio para caramba, com gelo no campo, o pé ficava duro, congelado. Para correr estava complicado, tinha que tomar um café quente, pra ver se melhorava. Café com um pouquinho de conhaque... Tomava um gole e dava uma esquentada. O campo cheio de gelo dava dor no pé. Para correr foi duro, tinha que jogar de luva. No começo do jogo, até uns 20 minutos, foi complicado. Queríamos abrir a boca, mas eu não conseguia nem falar - disse.
A alimentação também foi um problema, e alguns jogadores chegaram a levar comida do Brasil escondida na mala. Não deu nem para trazer muitas compras para casa, já que a língua impedia a comunicação. Os corintianos só conseguiram comprar quando estavam acompanhados do tradutor que acompanhava a delegação. No segundo amistoso, em Nagoia, o Timão venceu por 2 a 1 (gols de Casagrande e Jorginho), mas no terceiro despediu-se com derrota por 3 a 2 (gols de Sócrates e Biro-Biro), em Tóquio.
- A comida era mais doce que a nossa, até o bife. Tinha gente que levou latinha de feijão, umas misturas para comer. Era duro chegar e se comunicar no hotel. A gente usava sempre uma palavra que o tradutor nos falou, mas na hora esquecíamos, explicávamos com o dedo, mostrando que queríamos comer. Para comprar alguma coisa era duro pagar, enrolava tudo. Perguntávamos quanto custava, mas os japoneses não entendiam nada e nós também não. Tinha coisa que nem dava para comprar, só quando tinha o japonês. Tinha que levar ele junto - disse Biro-Biro.
- O Casagrande foi o cara da delegação. Ele fazia umas sacanagens, vestia umas máscaras japonesas e ficava assuntando quem tinha medo. Tirava sarro e assustava todo mundo. O time estava se formando, foi uma experiência legal. É um futebol diferente, muita correria por parte dos japoneses. Eu nunca tinha jogado na neve, é muito estranho. Você congela, os seus movimentos ficam limitados, é impressionante o quanto te afeta. Não tem adaptação - afirmou Zenon, ex-meia do Timão.
Fonte: Globo Esporte






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