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29 outubro 2012

Lembra Dele? Primeiro japonês do Timão, Koichi aconselha chinês Zizao

Koichi Hashimoto, primeiro e único japonês a jogar pelo Corinthians

Koichi Hashimoto, primeiro e único
japonês a jogar pelo Corinthians
Crédito da imagem: Arquivo Pessoal do "Meu Timão"
Koichi Hashimoto nasceu no país errado. Não há dúvida. Não fossem pelos olhos puxados e pelo sotaque, você juraria estar diante de um brasileiro, daqueles malandros até na maneira de falar e mil histórias a contar. Um nipônico às avessas que pegou gosto pelos chutes na bola depois de tanto carimbar os traseiros dos amiguinhos na escola. No país do beisebol, preferiu o futebol. Largou a vida estável de um país desenvolvido pelo sonho de ser jogador profissional no Terceiro Mundo. Quase 30 anos depois de iniciar seu caso de amor com o Brasil, o primeiro japonês a jogar pelo Corinthians volta à terra natal para se juntar ao 'Kichigai Shudan' (banco de loucos) na torcida pelo título mundial.

A história, porém, começa muito antes dos momentos inesquecíveis que teve no Parque São Jorge, ao lado de ídolos como Casagrande e Marcelinho Carioca. O ex-meio-campista foi obrigado enfrentar a rigorosa e tradicional sociedade oriental com um comportamento pouco habitual para a época. Depois, por escolher um esporte quase não praticado no país até então e, sobretudo, decidir que gostaria de seguir carreira do outro lado do planeta.

- Eu brigava muito com meus amigos na escola. Um dia, um professor me disse: 'Por que você não chuta a bola em vez de uma pessoa? Não vai doer e ninguém vai gritar!'. Naquela época, o beisebol era o forte, mas eu queria mesmo era jogar futebol - contou.

A paixão pelo Brasil e o desejo de se profissionalizar começou em 1983. De férias em São Paulo, conseguiu através de um tio a realização de um teste no próprio Corinthians, mas a necessidade de voltar ao Japão em virtude das aulas atrapalhou a continuidade. No retorno, a cabeça já não estava mais em Tóquio. Com muito custo, convenceu os pais a aceitarem que se mudaria para a América do Sul definitivamente. Desta vez, em um novo clube, o XV de Jaú, famoso por revelar jogadores.

- Um amigo do meu tio me levou para o XV. Sempre fui titular na base, usava a camisa 10. Disputei a Copa São Paulo, fui campeão paulista juvenil. Subi para o profissional com 18 anos. Lembro que estreei no profissional contra o Juventus, na Rua Javari. Entrei no segundo tempo, e, no primeiro toque na bola, dei o passe para o Nilson marcar. Eu não acreditava. Era um sonho - recordou.

Corinthians? Alagoano ou de Prudente?
O reencontro com o Timão demorou a acontecer. Koichi perambulou por clubes menores, como Comercial-MG e Central de Caruaru-PE, e até regressou ao Japão para defender o Jeff United. No entanto, uma fratura em um dos pés o trouxe novamente ao Brasil para fazer tratamento e retornar aos gramados, no Nacional, tradicional clube da capital paulista.

Era a chance que ele precisava para provar a si mesmo que conseguira atuar em alto nível no 'país do futebol'. Ao lado de Dodô no time, foi um dos destaques do Nacional em um amistoso contra o São Paulo, no CT da Barra Funda, e chegou a ser convidado pelo preparador físico Altair Ramos a realizar um período de testes no Tricolor. A oferta causou alegria e espanto, mas a grande surpresa viria após a partida.

- Encontrei meu empresário logo em seguida e ele disse que eu iria para o Corinthians. Um diretor foi me ver no amistoso e gostou. Eu disse: 'Você está brincando? É o Alagoano ou o de Prudente (risos)'? Mas era o paulista mesmo. P..., eu não conseguia acreditar naquilo! Logo depois, assinei contrato de um ano.

Hashimoto viveu momentos mágicos no Timão mesmo sem atuar com freqüência, situação semelhante ao que vive o chinês Zizao atualmente. Ele foi utilizado apenas duas vezes pela equipe principal, em amistosos contra equipes japonesas, no início de 1994. No mais, participou de jogos da equipe de aspirantes, quase sempre na preliminar do time A, muitas vezes diante de um Pacaembu lotado. Inesquecível para quem via tudo aquilo como um sonho distante.

- O Jair Pereira foi contratado para ser o técnico no Brasileirão de 1994, e, na apresentação, brincou comigo, perguntando o que eu estava fazendo ali. O Viola respondeu: 'Esse japonês não é qualquer um. Você vai ver um treinamento dele e depois vai falar' - gargalhou.

E Jair falou mesmo. Tanto que planejava utilizá-lo em uma partida contra o Flamengo. A sorte, contudo, não andou ao lado do oriental nesse período. No último treino coletivo, no Parque São Jorge, sofreu uma lesão em um dos joelhos. O mês de tratamento não foi suficiente para recuperá-lo, e Koichi foi obrigado a passar por uma cirurgia, minando qualquer possibilidade de atuar.

- Eu agradeço muito ao Corinthians pela oportunidade. Não consegui responder como eles queriam, mas fui tratado muito bem por todos. Essa lesão atrapalhou bastante. Eu acho que teria uma sequência, vinha treinando muito bem. Aquela experiência de atuar com campeões, como Viola, Branco, Rivaldo, Marcelinho, Tupãzinho, Casagrande e Sylvinho foi demais - disse.

'Menopausa' no joelho
Casão e Tupãzinho eram os amigos mais próximos e responsáveis também por boa parte das brincadeiras, principalmente aquelas que envolviam palavras desconhecidas dele. Em uma delas, Koichi foi informado pelos companheiros de que o problema que sofrera no joelho se tratava de uma 'menopausa'. Segundo Casagrande, um problema crônico que poderia acabar com a carreira dele. O japa acreditou.

- Quando machuquei, todo mundo veio falar comigo no vestiário. O Casagrande, que eu chamo de Cabeção, veio com essa história de menopausa, que eu não poderia jogar nunca mais se não cuidasse. Eu não sabia o que era e acreditei. Eu falava para todo mundo que tinha menopausa no joelho. Só depois que me contaram que não era isso, mas até hoje o pessoal me chama de menopausa (risos).

- Ele fazia tudo que eu falava. Era muito engraçado. E ele também era muito bom jogador - disse Casagrande.

Koichi aprendeu a lição e incorporou a malandragem ao dia a dia. Hoje, trabalha como agente Fifa e consultor de empresas japonesas, se dividindo entre Goiânia, cidade que adotou, e Tóquio. Nos hábitos, virou um brasileiro, daqueles de comer arroz, feijão e bife diariamente e apreciar até feijoada. Na maneira de falar, usa as gírias nacionais, que ficam mais engraçadas com o sotaque característico.

Timão campeão e paciência com Zizao
Quase 20 depois, Koichi se vê em Zizao, reforço chinês que ainda luta por espaço no Corinthians. Com um jogo disputado, diante do Cruzeiro, há duas semanas, em Varginha, pelo Brasileirão, ele só voltará a ser utilizado em 2013, no Campeonato Paulista. Por isso, o 'vizinho' japonês o aconselha.

- É claro que o Corinthians queria atrair investidores japoneses comigo, mas fui contratado porque tinha qualidade. Com ele é assim também. Ele vai precisar de muita dedicação e sorte. Só ele pode conseguir jogar, mostrando diariamente nos treinos. Não precisa ter pressa, está no melhor clube do Brasil. Espero que não se machuque - ressaltou Hashimoto, que ainda atuou por Kashiwa Reysol-JAP, San Jose-EUA, Paraná Clube e Santa Cruz-PE.

Koichi só não tem dúvidas sobre o futuro corintiano no Mundial de Clubes, em dezembro, em sua terra natal. Para ele, o título é quase certo. E, claro, com ele nas arquibancadas para assistir.

- Se jogar como na Libertadores, vai ganhar. Vai atropelar o Chelsea.

Ikuze, Corinthians! Vai, Corinthians!

Fonte: Globo Esporte

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