
O centroavante Fernando Baiano esteve em campo por menos de 10 minutos no Mundial de Clubes de 2000. Mas foi decisivo para a conquista do Corinthians. Diferentemente de alguns dos jogadores mais experientes do elenco comandado por Oswaldo de Oliveira, o prata da casa pediu para cobrar pênalti na decisão contra o Vasco. Chutou no canto, beijou a sua aliança e apontou o indicador direito para a torcida corintiana.
Fernando Baiano já estava plenamente ambientado aos profissionais do Corinthians naquela época. Um ano antes, havia marcado cinco gols em uma mesma partida contra o Cerro Porteño (que voltará a enfrentar o clube do Parque São Jorge em 2010) e garantido a artilharia da Copa Libertadores da América. Chegou a gravar um vídeo em que cantava rap para homenagear a sua equipe: "Respeito Palmeiras, São Paulo e Mengão/ Dá licença de dizer, mas eu sou Coringão/ Corinthians, Corinthians, Coringão!/ É o Timão, é campeão!".
Atualmente com 30 anos, o paulistano Fernando Baiano passou por Alemanha e Espanha e agora defende o Al Wahda (mesmo time dos brasileiros Pinga e Magrão, ex-jogadores do Internacional), dos Emirados Árabes Unidos. O centroavante sonha obsessivamente com o seu retorno para o futebol brasileiro. Aceitaria até defender o Palmeiras, conforme revelou nesta entrevista.
Você só entrou em campo na prorrogação do último jogo do Mundial. Foi difícil acompanhar a maior parte do torneio do banco de reservas?
Fernando Baiano: Eu estava morrendo de vontade de jogar. Queria ajudar de alguma maneira, sendo decisivo para uma conquista internacional. Mas era complicado. Só tínhamos jogadores de seleção brasileira entre os titulares, que resolviam os jogos por eles mesmos. Restava aos mais novos, como eu, esperar uma brechinha.
Ficou surpreso quando o espaço apareceu, justamente na decisão contra o Vasco?
Fernando Baiano: Não sei por que, mas eu tinha certeza de que seria importante para o Corinthians naquela final. No banco de reservas, eu estava assistindo ao jogo sem me aguentar. Não me lembro mais de quem estava ao meu lado, mas disse assim para essa pessoa: "Cara, vou entrar nesse jogo. Se me derem a chance, o gol vai sair. Nem que seja de pênalti!".
E foi de pênalti...
Fernando Baiano: Viu só? Graças a Deus! O pessoal sabia do meu potencial para cobrar pênalti. Não que eu fosse melhor do que os demais nesse momento, mas entrei no jogo para isso. Pedi para o professor Oswaldo de Oliveira me colocar em campo para a disputa de pênaltis. Eu queria entrar para a história do Corinthians como um dos cinco jogadores que decidiram a final do Mundial. Consegui. Fiquei marcado para sempre.
Você era muito jovem na época. Não se sentiu pressionado na hora da cobrança?
Fernando Baiano: Por mais incrível que pareça, não senti peso nenhum. Assumi a responsabilidade, mesmo. Bati bem e ajudei o Corinthians a ser campeão. O que acabou facilitando foi o fato de eu ter treinado muito as cobranças de pênalti.
Alguns jogadores disseram que os mais renomados do elenco pediram para não bater pênalti, ao contrário de você.
Fernando Baiano: Isso é verdade. Alguns atletas mais experientes não quiseram cobrar. Mas tudo bem. Não é todo mundo que gosta e se sente bem em um momento como esse. O mais importante é que o Corinthians foi campeão.
O que aquele título representou na sua carreira?
Fernando Baiano: Só tenho lembranças maravilhosas do Mundial. Foi uma conquista inesquecível, pois reuniu grandes times, como Vasco, Real Madrid e Manchester United. É um título que a torcida corintiana jamais vai esquecer.
Torcedores de outros clubes costumam diminuir a importância dessa conquista...
Fernando Baiano: Muita gente fala que o Mundial de 2000 foi uma bobagem, mas todos os times gostariam de ter vencido. Eu me considero um campeão do mundo de futebol, pois é como a Fifa classifica. Quem vai bater de frente com a Fifa?
Como você festejou o título?
Fernando Baiano: A véspera da final já tinha sido bem legal. Quando amanheceu o dia, vimos um monte de vascaínos nas ruas do Rio de Janeiro. Esse cenário não intimidou a gente. Até porque, quando chegamos ao Maracanã, a nossa torcida estava lá. Aquele grito, "Todo-poderoso Timão", mexeu muito com os jogadores. Nós nos abraçamos no vestiário de alegria, como verdadeiros amigos. Depois, chegamos a São Paulo e entramos em contato com mais uma multidão de corintianos, desfilando pelo caminhão de bombeiros até o Parque São Jorge. Foi uma festa muito bonita. À noite, fui para casa e comemorei com a minha namorada.
Nessa época, você já se sentia à vontade no meio daquela equipe cheia de estrelas do Corinthians?
Fernando Baiano: Ser integrado ao melhor time do Brasil era uma responsabilidade muito grande. Mas comecei bem. A crítica me apontava como um jogador de futuro desde a conquista da Copa São Paulo. Isso me deu confiança para disputar a Libertadores, ser artilheiro e continuar brigando por um espaço no Corinthians.
O Edu contou que os novatos ficavam sem jeito diante das discussões dos mais velhos.
Fernando Baiano: As brigas aconteciam fora de campo. Lá dentro, um corria pelo outro para defender o Corinthians. Já joguei em vários elencos em que todos os jogadores eram amigos, mas não ganhávamos os jogos nem os campeonatos. No Corinthians, acontecia o contrário. Havia inimizade, mas ganhávamos tudo.
Apesar das confusões, aquele elenco do Corinthians também era bem descontraído.
Fernando Baiano: Sim! Como eu disse, tudo mudava nos jogos. Os atletas até se abraçavam em campo, vibravam... E também havia muita risada nos bastidores. O Gilmar Fubá, o Mirandinha e o Dinei eram palhaços pra caramba. A resenha do pessoal era boa. Sinto saudades desse clima.
Quais são as suas maiores recordações daquele período?
Fernando Baiano: O que mais me marcou foram os rachões entre os times do Edílson e do Vampeta. A galera esperava a semana inteira por esse jogo. Tirávamos fotos e filmávamos tudo. No final do ano, havia até um troféu para a equipe campeã. Ninguém aceitava perder. Nos nossos jantares, neguinho ficava enchendo o saco do time que tinha sido derrotado. Os mais novos, como eu, precisavam ficar quietos para não levar um esculacho: "Você não pode falar nada, hein, moleque! Fica na sua!".
Você tinha motivo para esculachar os outros?
Fernando Baiano: Um pouquinho. Eu jogava no time do Edílson, que a gente devia chamar de "Patrão", e a nossa equipe ganhava bem mais. O Edílson falava que daria dinheiro para a garotada que marcasse bem o Vampeta [risos]. Apesar de não poder zoar muito, o meu entrosamento com o pessoal era bom.
Estava à vontade até para cantar rap na televisão, não é?
Fernando Baiano: Bem lembrado [risos]. Mas não sei compor. O MC Naldinho, um rapper de São Paulo, cantava uma música em homenagem ao Corinthians. Como eu gostava do som e estava surgindo na época, marcando muitos gols e conquistando títulos pelo clube, ele resolveu me convidar para rimar junto. Nós nos trombamos na rua e gravamos um vídeo. Foi bem legal.
Com todo esse ambiente favorável, por que não ficou mais tempo no Corinthians? Você chegou a marcar cinco gols em uma mesma partida [8 a 2 sobre o Cerro Porteño], foi artilheiro daquela Libertadores de 1999...
Fernando Baiano: As lesões me atrapalharam. Sempre que eu estava engrenando, marcando gols como os que você citou, acabava me machucando. Infelizmente, não consegui ter mais destaque no Corinthians por causa dessa série de problemas. Se não fosse por isso, talvez eu tivesse jogado muito tempo no Timão e me tornado um ídolo do clube. Mas não fico remoendo nada, pois procurei novos ares no Internacional e tive uma passagem brilhante por lá, sendo campeão gaúcho.
Depois, você foi para o Flamengo. Gostou de jogar em mais uma equipe de massa?
Fernando Baiano: Muito. Falo até hoje sobre o Flamengo com os meus amigos. A torcida me adotou e começou a parodiar o samba-enredo do Salgueiro para mim: "Fernan-do! Baia-no! Balança o coração da gente!". Essa música me arrepiava. Imagine só: disputar uma final de campeonato no Maracanã, com 90 mil pessoas cantando isso para você. É uma façanha! Sempre que me encontro com flamenguistas, eles me pedem para voltar ao clube.
A torcida do Flamengo te contagiava mais do que a do Corinthians?
Fernando Baiano: Tanto quanto. Não dá para comparar. As duas torcidas são enormes. Não sei qual é maior. No Nordeste, por exemplo, há um monte de corintianos e flamenguistas. Fui abençoado por ter defendido esses dois clubes.
Como foi a sua adaptação ao futebol europeu?
Fernando Baiano: Sossegada. Logo na minha estreia na Alemanha, pelo Wolfsburg, marquei dois gols contra o Bayern de Munique. Caí nas graças da torcida. Claro que foi difícil encarar a neve depois de sair de um Rio de Janeiro muito quente, mas nunca tive problemas para morar em outros países. A minha passagem pela Espanha também foi tranquila.
Não enfrentou dificuldades nem nos Emirados Árabes?
Fernando Baiano: Aí, complicou um pouco mais. Cheguei ao Oriente Médio durante o Ramadã. Muitos jogadores aderem ao jejum, e você não pode comer nas ruas nem beber água naturalmente. É meio estranho. Fora o calor, que é intenso. Mas agora já estou acostumado. Tudo ficou mais fácil.
O que você faz para se distrair?
Fernando Baiano: Costumo passear bastante, principalmente em Dubai. É uma cidade muito bonita, rica, com ótimos shoppings e restaurantes. O pessoal de lá também não é tão fanático como no restante do Oriente Médio, até porque a maioria da população é estrangeira. A vida é boa, não dá para negar. Mas cansa, sabe?
Por quê?
Fernando Baiano: Porque aqui não existe aquele amor pelo futebol, pressão no ambiente de trabalho, nada disso. Os estádios recebem no máximo 2.000 pessoas por jogo. O esporte está se desenvolvendo, mas acho difícil mudar alguma coisa nesse sentido. A cultura deles é bem fechada. Vejo um monte de jogadores brasileiros que estão loucos de vontade de voltar para casa.
Você é um deles?
Fernando Baiano: Sem dúvida. Penso no meu futuro. Mas não venho recebendo propostas de grandes times do Brasil ultimamente. Tenho sido artilheiro sempre, ganhado troféus, prêmios... Só que nada disso é noticiado no meu país. A gente acaba meio esquecido aqui. E, a cada ano que passa, fica mais difícil voltar. Estou envelhecendo, né? A idade chegou. Daqui a duas temporadas, ninguém mais vai se interessar por mim. Só se for para jogar pelada.
Tem vontade de encerrar a carreira no Corinthians?
Fernando Baiano: Seria ótimo! O Corinthians é o clube que me revelou. O meu passado lá é muito forte. Adoraria voltar e reencontrar a torcida depois de todo esse tempo atuando fora do Brasil.
Mas, já que tem tanta vontade de voltar para o Brasil, jogaria até pelo Palmeiras?
Fernando Baiano: Não posso falar que não atuaria lá. Sou profissional. Vida de jogador é assim. Quem imaginaria que o Paulo Nunes defenderia o Corinthians depois de tudo o que fez pelo Palmeiras? Achei isso estranho. Acontece. Adoraria voltar para o Corinthians, mas eu iria para o Palmeiras com o maior prazer do mundo e honraria as cores do clube.
Vai acompanhar o Corinthians no ano do centenário?
Fernando Baiano: Sim. Espero que o Corinthians seja campeão da Libertadores em 2010. O clube quer ganhar esse título há muitos anos e merece. É o sonho de todos os corintianos.
A Libertadores terá mais valor do que o Mundial de 2000 para o Corinthians?
Fernando Baiano: Sem desmerecer o Mundial, acho que esse título vai ficar um pouco de lado caso o Corinthians finalmente ganhe a Libertadores. A nossa conquista em 2000 foi muito bacana. Só que o desejo dos corintianos, há muito tempo, é o troféu de campeão da América. Também estou na torcida.